domingo, 6 de setembro de 2009

TRADUÇÃO ( I ) Herman Melville


Herman Melville: Benito Cereno. Billy Budd. Bartleby, o escrivão

Jorge Luis Borges


Há escritores cuja obra não se parece ao que sabemos, de seu destino; tal não é o caso de Herman Melville, que sofreu grandes severidades e solitudes que seriam o barro [matéria-prima] dos símbolos das suas alegorias. Nasceu em New York em 1819. Filho de uma grande família em decadência, de severa tradição calvinista, perdeu o seu pai aos treze anos. Aos dezenove empreendeu a primeira de suas grandes navegações; foi como marinheiro à Liverpool. Em 1841 alistou-se em um navio baleeiro que zarpou de Nantucket. O capitão era durão com sua gente; Melville desertou em uma das ilhas do Pacífico. Os nativos, que eram canibais, o acolheram. Cem dias e cem noites passaram-se e o resgatou um navio australiano. A bordo desse navio, Melville comandou um motim. Por volta de 1845 voltaria a New York.
Typee, seu primeiro livro, data de 1846. Em 1851 publicou o romance Moby Dick, que passou quase que despercebido. A crítica o descobrira por volta de 1920. Agora é famoso; a baleia branca e Acab têm seu lugar nessa heterogênea mitologia que é a memória dos homens. Abundância em frases misteriosamente felizes: “O pregador, de joelhos, rezou com tanta devoção que parecia um homem ajoelhado e rezando no fundo do mar”. A noção de que o branco pode ser uma cor terrível já estava em Poe. Também as sombras de Carlyle e Shakespeare andam por esse espaço.
Melville tinha, como Coleridge, o hábito do desespero. Moby Dick é, de fato, um pesadelo.
O amor à Bíblia o induziria a empreender a última de suas viagens. Em 1855 andou por terras do Egito e da Palestina.
Nathaniel Hawthorne foi seu amigo. Morreu, quase que esquecido, em New York, em 1891.
Bartleby, que data de 1856, prefigura a Franz Kafka. Seu desconcertante protagonista é um homem obscuro que se nega tenazmente à ação. O autor não o explica, mas nossa imaginação o aceita imediatamente e não sem muito lastimar. Na realidade são dois os protagonistas: o obstinado Bartleby e o narrador que se submete a sua obstinação e acaba por afeiçoar-se a ele.
Billy Budd, pode resumir-se como a história de um conflito entre a justiça e a lei, contudo esse resumo é muito menos importante do que o caráter do herói que declarou morte a um homem e que não compreende até o fim porque o julgam e condenam.
Benito Cereno segue suscitando polêmicas. Há quem o julgue a principal obra de Melville e uma das magistrais obras da literatura. Há quem a considera um erro ou uma série de erros.
Há quem sugira que Herman Melville se propôs a escrever um texto deliberadamente inexplicável que fosse um símbolo cabal deste mundo também inexplicável.

Tradução, Jeferson da Costa Valadares.

(BORGES, Jorge Luis. Biblioteca personal. Alianza Editorial, Madrid, 2004. p. 50-52.)