REFLETIR [SOBRE], ASSIM COMO RIR, É O PRÓPRIO DO HOMEM
Jeferson da Costa Valadares
I
A conhecida crônica Gargantua de François Rabelais (1483/95 – 1553) começa com um poemeto de dez versos dirigidos “aos leitores”:
Amis lecteurs, qui ce livre lisez
Despouillez vous de toute affection,
Et, le lisant, ne vous scandalisez:
Il ne contient mal ny infection.
Vray est qu`icy peu de perfection
Vous apprendrez, sinon en cas de rire:
Autre argument ne peut mon coeur elire.
Voyant le dueil qui vous mine et consomme
Mieulx est de ris que de larmes escrire:
Pource que rire est le propre de l`homme.
Vivez Joyeux!
[1] Tem-se, portanto, na conhecida tradução de Aristides Lobo o seguinte:
Caros leitores, que este livro vedes,
Libertai-vos de toda prevenção;
E não vos melindreis, ó vós que o ledes,
Que nenhum mal contém, nem perversão.
É verdade que pouca perfeição,
Salvo no riso, aqui podeis obter:
Outra coisa não posso oferecer,
Ao ver as aflições que vos consomem;
Antes risos que prantos descrever,
Sendo certo que rir é próprio do homem.
Vivei Alegres!
[2]II
O poemeto de Rabelais, escrito em uma perspectiva “moderna”, coloca bem em evidência o que é o próprio do homem. Sendo Rabelais, um antimedieval, satirizou muito profundamente com a Idade Média. Porém, há nesse poemeto ideias anteriormente esboçadas à Idade Moderna. Ideias desenvolvidas tanto por Aristóteles, Porfírio na Isagoge, tanto quanto por autores medievais. O interessante nesta rápida análise do poemeto é mostrar que o rir é uma propriedade do homem, bem como a reflexão sobre determinado assunto e sobre si mesmo. Isto é, o ler [poemeto] como chave de leitura para uma interpretação de natureza antropológica; ou melhor, de antropologia filosófica. Já que responde por via secundária e deixa implícita a pergunta fundamental: que é o homem?
Tentar-se-á, cotejar com E. Cassirer [Sócrates] algumas ideias sobre quem é o homem e o que ele é capaz, quando se pergunta. Em outras palavras, admitir com Rabelais e Sócrates (na Apologia), que refletir [sobre], assim como rir, é o próprio do homem. Limitar-se-á a duas perguntas acerca do homem; possíveis e iguais, mas que reclamam respostas distintas: 1) quem é o homem? O homem é aquele que ri (Rabelais), pois essa faculdade lhe é própria. 2) quem é o homem? O homem é aquele que reflete sobre sua própria vida (Sócrates), pois só o homem é capaz de pensar e refletir sobre si e sobre as coisas; e “uma vida não examinada, não vale a pena ser vivida”.Nisto reside o problema a ser apresentado e estudado.
Em um estudo sobre o riso como próprio do homem, o medievalista Carlos Arthur Nascimento explicita esta interpretação do poemeto:
Quando Rabelais diz que “rir é o próprio do homem”, está aludindo a uma conhecida teoria lógica e a um exemplo milenar. No século XVI, qualquer aluno de lógica elementar sabia que “próprio” era um dos cinco predicáveis, isto é, uma das cinco classes de predicados: o gênero, a espécie, a diferença, o próprio e o acidente. A origem desta classificação encontra-se em Aristóteles, “Tópicos”, Livro I, caps. 5-6, ver também “Tópicos”, Livro V, cap. 1 e seguintes. Aristóteles caracteriza o próprio da seguinte maneira: “O próprio é o que, sem exprimir a essência do sujeito, só a este pertence, de maneira que é com ele convertível; por exemplo, é próprio do homem a capacidade de aprender gramática, porque, se A é homem, é capaz de aprender gramática, e se é capaz de aprender gramática, é homem.”
[3] Tal passagem, também pode ser encontrada no quarto capítulo da obra Isagoge do neoplatônico Porfírio (230-340). Na qual trata o próprio em quatro espécies. A quarta e última espécie é o ponto onde se quer chegar:
[Os filósofos] dividem o próprio em quatro espécies. (a) De fato, o que se dá em uma só espécie, mas não necessariamente em toda a espécie: assim, para o homem, o fato de ser médico ou de praticar a geometria; (b) o que se dá em toda a espécie, mas não somente nela: por exemplo, para o homem, o fato de ter duas pernas; (c) o que se dá em toda a espécie, somente nela e em um tempo determinado: assim para todo homem o fato, em sua velhice, de ver seus cabelos embranquecerem; (d) finalmente, em quarto lugar, o caso em que coincidem dar-se em uma só [espécie], [à espécie] toda e sempre: assim, para o homem a capacidade de rir. De fato, mesmo que o homem não ria sempre, diz-se, ao menos, que é capaz de rir, não porque está sempre rindo, mas porque, por natureza, é capaz de fazê-lo: isto lhe pertence sempre e de um modo natural, como do cavalo faz parte a possibilidade de relinchar.
São precisamente esses [traços] que, segundo [os filósofos], se denomina próprios em sentido estrito, porque são convertíveis: se há cavalo, há também capacidade de relinchar, e havendo capacidade de relinchar, há igualmente cavalo.
[4] A pergunta que é o homem, é uma pergunta clássica e que inaugura uma outra indagação na história da filosofia. Os filósofos gregos estão em busca de um princípio físico, natural – sem preconceito – cosmológico, esboçam de certa maneira uma filosofia física (escola de Mileto), filosofia matemática (Pitagóricos), uma possível filosofia lógica (Eleatas); Até mesmo Heráclito – segundo E. Cassirer – se encontra na fronteira entre o pensamento cosmológico e o antropológico, ainda que fale como um filósofo da natureza.
[5] É Sócrates, contudo, se assim se pode dizer, que inaugura a guinada antropológica na história da filosofia. Em Heráclito tem-se uma ideia, um esboço antropológico, mas nada tão claro e efetivo. Veja-se uma passagem de um de seus fragmentos, ao mencionar uma reflexão cara a este assunto aqui tratado: Pensar é comum a todos (Frag. 91a).
[6] Esta afirmação é bastante próxima do que Rabelais e Sócrates disseram, o primeiro, quando afirma que rir é o próprio do homem e o segundo, quando na Apologia, diz que uma vida não examinada [refletida], não vale a pena de ser vivida.
III
Sendo, então o problema do homem o que separa o pensamento socrático do pré-socrático, como afirma Cassirer, veja-se qual a importância que há em se perguntar sobre a natureza do homem, isto é, filosofar antropologicamente sem preconceito, mas aprofundando nas vias do pensamento:
(...), em Sócrates, não há mais do que uma questão: que é o homem? Sócrates sustenta e defende sempre o ideal de uma verdade objetiva, absoluta, universal, mas o único universo que conhece e ao qual se referem todas as suas indagações é o universo do homem. Sua filosofia, se é que possui alguma, é estritamente antropológica.
[7] Sócrates põe o problema antropológico na filosofia, também em sentido moral. Mas, é, sobretudo, se perguntar o que é o homem, e não dizer o que este é. Não há uma fórmula para definir o que é o homem, por isso recorre-se a analogias, a aproximações com diversos pensadores e correntes da filosofia. Sócrates não deixa claro o que é o homem, mas “assim como” Rabelais, nos diz que o homem é um ser que reflete, e uma vez desperdiçada esta capacidade, a sua vida não tem sentido de ser.
Há uma passagem em Cassirer que ilustra perfeitamente o problema a ser demonstrado, na aproximação de Sócrates com a ideia contida no poemeto de Rabelais:
Que é o homem? Já se disse que é uma criatura constantemente em busca de si mesma, que em todo o momento de sua existência tem que examinar [refletir sobre] e fazer escrutínio das condições da mesma. Neste escrutínio, nesta atitude crítica a respeito à vida humana [radica] o valor desta mesma. “Uma vida não examinada, - disse Sócrates na Apologia – não vale a pena de ser vivida”.
[8] O contexto em que Sócrates discorre sobre este processo de reflexão sobre a vida, dá-se em seu processo de condenação, mas precisamente ainda, quando Ele é declarado culpado e sugere a sua própria pena. No número XXVIII, de acordo com a numeração da edição portuguesa [Editorial Verbo] da Apologia de Sócrates:
(...) Se, por outro lado, disser que o maior bem para um homem consiste em discorrer todos os dias sobre a virtude e outros temas sobre os quais me tendes ouvido conversar, examinando-me a mim próprio e aos outros, e que uma vida sem este exame não é digna de ser vivida, ainda menos me acreditareis. No entanto juízes, o que vos digo é a verdade, embora não seja fácil convencer-vos disso. De qualquer maneira, não estou habituado a julgar-me digno de qualquer pena.
[9] Refletir [sobre], assim como rir, é o próprio do homem pelo fato de que ambas as situações são capacidades, faculdades e disposições que dizem respeito ao homem. Isto é, François Rabelais, nos passos de Aristóteles retoma e fixa um tema antropológico importante na vida, ao constatar de maneira irônica a diferença que há entre os seres. O homem ri, o cavalo relincha, o homem ri! Os outros animais nem mesmo a hiena possuem esta característica chamada de “próprio” por Aristóteles, pelos lógicos medievais etc.
Nada mais nobre, então do que examinar a vida, refletir sobre ela, como diz Sócrates na Apologia. É impossível conceber uma vida autêntica na posição de “filosofante”, sem refleti-la, examiná-la minuciosamente, ainda que isto custe caro. Não há sentido para o pensador, se não pensar. E, antes, pensar sobre si mesmo; perscrutar a totalidade do humano sem reduzi-lo a fórmulas estabelecidas.
Por fim, caros leitores que este texto ledes, não há nada de mal, nem afecção, nem muito menos perfeição e sim uma tentativa de compreender duas capacidades próprias do homem [rir e refletir] sem que se substituam estas, por comodismo, medo e ou ignorância, o risibilis (rir), que é o próprio do homem, por rudibilis (zurrar)
[10], que é o próprio do burro, que zurra. Entre zurrar e rir, refletir [sobre] é melhor a segunda opção: rir e refletir [sobre].
Indicações bibliográficas
RABELAIS, François. Gargantua. Vl. I, Collection Meilleurs Livres. Paris, Arthèmè Fayard & Cia Éditeurs, (19??).(Infelizmente não foi possível estabelecer um ano de publicação deste texto, pois é parte de uma coleção, já fragmentada).
__________________.__________. 3.ed. trad. Aristides Lobo. Biblioteca Clássica Vl. III. Atena: São Paulo, 1947. p.13.
NASCIMENTO, Carlos Arthur Ribeiro do. Rir é o próprio do homem. In: Ética e política no mundo antigo. Hector Benoit, Pedro Paulo Abreu Funari (Orgs.). São Paulo: UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2001. 288p. (Coleção Ideias; 3), p. 214.
CASSIRER, Ernest. Antropologia filosófica – introducción a una filosofia de la cultua. Traducción revisada de Eugenio Ímaz. Fondo de cultura económica, México – Buenos Aires, 1945. 335p. (Colección popular), p. 18-19.
BURNET, John. Aurora da filosofia grega. Trad. Vera Ribeiro; rev. da trad. Agatha Bacelar; trad. das citações em grego e latim Henrique Cairus, Agatha Bacelar, Tânia Oliveira Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. 384p.; p. 156.
PLATÃO. Êutifron; Apologia de Sócrates; Críton. Prefácio, tradução e notas de M. Oliveira Pulquério. Lisboa: Editorial Verbo, 1972. p. 98.
PORFÍRIO. Isagoge, introdução às Categorias de Aristóteles. Introdução, tradução e comentário Bento Silva Santos. São Paulo: Altar Editorial, 2002. p. 50-51.
[1] RABELAIS, François. Gargantua. Vl. I, Collection Meilleurs Livres. Paris, Arthèmè Fayard & Cia Éditeurs, (19??). (Infelizmente não foi possível estabelecer um ano de publicação deste texto, pois é parte de uma coleção, já fragmentada).
[2] RABELAIS, François. 3.ed. trad. Aristides Lobo. Biblioteca Clássica Vl. III. Atena: São Paulo, 1947. p.13.
[3] NASCIMENTO, Carlos Arthur Ribeiro do. Rir é o próprio do homem. In: Ética e política no mundo antigo. Hector Benoit, Pedro Paulo Abreu Funari (Orgs.). São Paulo: UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2001. 288p. (Coleção Ideias; 3), p. 214.
[4] PORFÍRIO. Isagoge, introdução às Categorias de Aristóteles. Introdução, tradução e comentário Bento Silva Santos. São Paulo: Altar Editorial, 2002. p. 50-51. ( O tradutor, assinala com uma importante nota [45, p. 86], cujo assunto retornará a ser abordado: “Em Tópicos I, 5, 102 a 18-19, Aristóteles define o próprio do seguinte modo: ‘O próprio é aquilo que, sem expressar a essência de uma coisa, pertence, todavia, somente a ela e é convertível com ela’”).
[5] CASSIRER, Ernest. Antropologia filosófica – introducción a una filosofia de la cultua. Traducción revisada de Eugenio Ímaz. Fondo de cultura económica, México – Buenos Aires, 1945. 335p. (Colección popular), p. 18-19.
[6] BURNET, John. Aurora da filosofia grega. Trad. Vera Ribeiro; rev. da trad. Agatha Bacelar; trad. das citações em grego e latim Henrique Cairus, Agatha Bacelar, Tânia Oliveira Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. 384p.; p. 156.
[7] CASSIRER, E. Op. Cit., p. 19.
[8] Ibidem., p. 21.
[9] PLATÃO. Êutifron; Apologia de Sócrates; Críton. Prefácio, tradução e notas de M. Oliveira Pulquério. Lisboa:Editorial Verbo, 1972. p. 98.
[10] Sobre este assunto ver o artigo de Carlos Arthur in: Op. cit., p. 216.